"Se você treme de indignação perante uma injustiça no mundo, então somos companheiros." (Che Guevara)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

"Morre o capitalismo ou morre a Mãe Terra" - Evo Morales

“ Só temos dois caminhos: a Pachamama (Mãe Terra, em aymara) ou a morte. Morre o capitalismo ou morre a Mãe Terra. Vive o capitalismo ou vive a Mãe Terra”.
Agência Boliviana de Informação ( www.abi.bo )
O presidente Evo Morales responsabilizou o sistema capitalista, mascarado pelo Acordo de Copenhague, pela deterioração acelerada do ecossistema, provocada pela emissão de gases e aquecimento global. A declaração foi feita ao inaugurar, na terça-feira, na boliviana Tiquipaya, a reunião alternativa I Conferência Mundial de Povos sobre a Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra (CMPCC).
“ A causa principal da destruição do planeta Terra é o capitalismo e, como povos habitantes, que respeitam a Mãe Terra, temos todo o direito, temos a ética e a moral de decidir aqui que o inimigo central da Mãe Terra é o capitalismo”, afirmou no ato celebrado no estádio de futebol ecológico de Tiquipaya, flanqueado por escadarias de grama e madeira, ante 20.000 representantes de indígenas, ecologistas e de movimentos sociais oriundos de 129 países dos 5 continentes.
“ O sistema capitalista busca obter o máximo lucro possível, promovendo um crescimento sem limites, um planeta finito. O capitalismo é a fonte de assimetrias e desequilíbrio no mundo”, afirmou ao denunciar a pobreza em que se debate a metade da população mundial.
“ Mais de 2.800 milhões de pessoas vivem com menos de dois dólares por dia. Para o capitalismo, os seres humanos são somente consumidores e força de trabalho. As pessoas valem aquilo que têm e não o que são”, destacou ao denunciar que o sistema econômico mundial imperante mercantiliza a água, a terra e até a cultura.
“ Enquanto não alterarmos o sistema capitalista, as medidas que adotamos terão um caráter limitado e precário”, advertiu no momento em que abordou um dilema existencial: “continuar pelo caminho do capitalismo e chegar à morte, ou empreender o caminho da harmonia com a natureza e o respeito à vida para salvar a humanidade”.
O governante boliviano explicou que a CMPCC se contrapõe ao Acordo de Copenhague. O Acordo nasceu na reunião, em dezembro último, quando as potências industriais resolveram ratificar os princípios do Protocolo de Kioto, que declarou em 1997, imperiosamente vital a redução das emissões de gás tóxico para diminuir a temperatura do globo terrestre. Morales repudiou os compromissos inconsistentes adotados na capital dinamarquesa.
“ As ofertas de redução de gás feita pelos países desenvolvidos mal podem ser chamadas de ‘Acordo de Copenhague’. São, na realidade, apenas 2%, tomando em conta os níveis de emissão do ano de 1990”, advertiu.
As potências envolvidas na depredação da natureza e do planeta “estão longe de salvar a humanidade. Permitirão o incremento da temperatura acima dos quatro graus centígrados”, o que sublevará os mares e provocará o derretimento das geleiras, enfatizou.
“ Isto é inaceitável e, por isso, convocamos esta Conferência e convidamos todos os governos a vir discutir aqui, cara a cara, com nossos povos”, defendeu ao sublinhar que nas últimas duas décadas do século passado, quando despontou o fenômeno meteorológico El Niño (choque de massas de água quente e correntes de ar frio do Pacífico Sul), os Andes sul-americanos, que comportam dilúvios e secas, ficaram extraordinariamente quentes.
Os avanços do Acordo de Copenhague serão avaliados no México, em novembro que vem. No caso de não reverterem ou frearem os problemas, “se reduzirá a produção de alimentos no mundo em 40%, aproximadamente, o que levará ao aumento do número de famintos no mundo, passando da cifra de 1.020 milhões de pessoas. Além disso, entre 20 e 30% das espécies de animais e vegetais poderão desaparecer”, evidenciou.
Sempre em tom de advertência, prognosticou que tal mudança de vida provocará “o derretimento dos pólos e glaciais dos Andes e os Himalaias” e que várias ilhas desaparecerão do Oceano, ficando submersas”.
Atte.- Fernando Yépez Rivas,

* União dos Nossos Povos da América e Caribe
CEDHAE, Comitê Equatoriano de Direitos Humanos, Ambientais e Ecológicos
Tradução: Maria Fernanda M. Scelza

AS DAMAS DE BRANCO SÃO UMA MONTAGEM CENOGRÁFICA...

Enrique Ubieta:

Publicado em 27 de Abril de 2010

Fernando Arrizado

Vieiros / Rebelión

Na terça-feira passada, dois dias depois da multitudinária marcha que ocorreu no centro de Compostela para denunciar a “farsa informativa sobre Cuba”, Enrique Ubieta visitava a capital galega. O escritor e jornalista cubano, responsável pela publicação A rua do meio e ex-diretor da Cinemateca Cubana, proferiu uma conferência e se reuniu com várias associações do país. O objetivo: levar ao conhecimento de todos a realidade da ilha, que difere da imagem apresentada pelos meios de comunicação europeus, especialmente os espanhóis, sobretudo, após a morte de Orlando Zapata, a enésima greve de fome de Guillermo Fariñas e as frequentes manifestações das Damas de Branco.
Vieiros: Guillermo Fariñas: vai morrer, pode morrer, não se importaria de morrer?
Enrique Ubieta: A presença midiática de Fariñas na grande imprensa mundial realça sua figura de pré-mártir – que ele assume, algo insólito num herói de verdade – o que provoca é uma estimulação, uma incitação à morte. Eu não posso interpretar o que ele pensa. O perigo é que pode morrer inclusive contra sua vontade, porque no organismo humano há um ponto de retorno que não é capaz de determinar nem o próprio grevista. Por outro lado, faz falta perguntar com que capacidade física uma pessoa que leva mais de 50 dias em greve de fome pode estar falando todos os dias na imprensa. Poderia não ser tão estrita. Porém o principal deste tema é que pode ocorrer um acidente, porque está sendo incentivado e a própria imprensa dificulta uma possível retratação dele.

Porém os médicos tentariam evitar...
Do ponto de vista ético, a Convenção de Malta estabelece que não se pode alimentar pela força uma pessoa que se nega a fazer por vontade própria. Fariñas permitiu ser alimentado, no hospital, pela via parenteral, porém só a via oral garante que um ser humano sobreviva.
O que poderia acontecer a nível político se ele morresse?
A nível interno, absolutamente nada. Isto pode soar insensível, porém no momento em que saí de Cuba, ele estava no hospital Santa Clara, todo o povo da cidade estava na final do Campeonato Nacional de Pelota (beisebol) e em Havana havia mais 200 mil pessoas dançando no concerto da Rua 13. Isso é o que estava ocorrendo em Cuba, não o que a imprensa internacional mostra.
Com relação ao que mostram as mídias, as Damas de Branco ocupam jornais e programas de televisão com manchetes que anunciam a perseguição que estão sofrendo pela Polícia cubana...
As Damas de Branco são uma montagem cenográfica. A direita vem aprendendo com as fórmulas de expressão da esquerda, como as Mães da Praça de Maio, autênticas lutadoras pela memórias de seus filhos e netos, torturados, assassinados... Em Cuba, não há nem torturados nem assassinados. As pessoas que estão encarceradas foram julgadas por tribunais segundo as leis. Tomam mulheres de pessoas que trabalharam para subverter a ordem constitucional – coisa que também é punida pelo código penitenciário espanhol –, as vestem de branco – uma cor associada à paz e à pureza – colocam umas flores e as levam à igreja católica que é um cenário perfeito para que sejam vistas na Europa. Assim, quando estão preparadas, dizem: “câmeras, ação!”. E aí, está a CNN, a TVE.... O que vocês estão vendo é um filme de ação que tem como personagens principais, fora das telas, os diplomatas europeus e norte-americanos que pagam os produtores do filme.
E a chamada oposição cubana?
São pessoas que não saíram de nenhum sindicato, de nenhum grupo. Nunca foram líderes de nada, nem têm contato e estão enraizados na população. Portanto, não representam nenhum setor. São individualidades que se reúnem nas embaixadas estrangeiras. Além disso, são financiados com fundos declarados do governo de Obama: 200 milhões de dólares. Opositores são outros; meus vizinhos e eu passamos a vida discutindo política. Mas isso é outra coisa. Não são eles que estão sendo pagos para subverter a ordem constitucional de Cuba.
A esquerda europeia vive um eterno debate moral entre apoiar ou condenar o sistema cubano...
Se a esquerda aceita como boas as definições de “democracia”, de “direitos humanos”, de “liberdade” alardeadas pela direita, sua margem de compreensão e de posicionamento no mundo é nula. Essa é uma esquerda que vem sendo pré-fabricada pela direita. Eu não sei como é possível que alguém que se diga de esquerda, aceite como forma de conduta o cânone que a direita estabeleceu de como deve ser um esquerdista politicamente correto. Com o tempo, esse esquerdista politicamente correto será mais um pedaço do próprio sistema capitalista e não produzirá nenhuma mudança real.
“Cuba é uma ditadura”, argumentam. O que é?
Em Cuba não existe uma ditadura. Existe uma democracia que não é igual a que existe no Estado espanhol, porém é mais autenticamente democrática. No Estado espanhol existe a ilusão de liberdade, de pluralidade que faz com que a imprensa se multiplique, com aparentes políticas editoriais diferentes, mas que na essência é a mesma. Se você ler El País, o ABC, El Mundo, pode apreciar que nos problemas fundamentais – não nos periféricos do sistema – eles possuem a mesma política editorial. São pontualmente de direita e estão marcando pautas de direita. A liberdade de expressão é um processo de ilusionismo.
Porém é certo que em Cuba só há um partido político...
Aqui há um sistema bipartidarista PSOE-PP. São parte do próprio sistema. São diferentes maneira de entender como tornar eficiente esse sistema e representar alguns dos interesses diferentes dentro da “pluralidade”, entre aspas, desse sistema. A única vez que no Estado espanhol se produziu um acidente a essa democracia, com a República, rapidamente surgiu o fascismo. A alternância do poder entre PP e PSOE é ilusória. É uma alternância de pessoas e métodos para reproduzir o sistema capitalista, não para alterá-lo.
Existe muita confusão ao redor do sistema eleitoral cubano. Como o povo elege seus representantes?
Acaba de recomeçar, há alguns dias, todo o processo eleitoral. Primeiro, se elegem delegados do bairro, de maneira direta e aberta. A gente conhece os vizinhos e propõe aqueles que consideramos mais capazes de representar nossas demandas. Os delegados eleitos constituem a Assembleia Municipal. Daí, saem mais de 50% das propostas para deputados e delegados dos conselhos provinciais, que são escolhidos pela população por via de voto direto e secreto. Portanto, mais da metade dos deputados da Assembleia Nacional – que é a que elege, finalmente, o presidente do país – são pessoas saídas dos bairros. A porcentagem restante são propostas de sindicatos, de federações, de instituições.
Um sistema melhor ou pior que o nosso?
É um sistema que não joga a favor daqueles que possuem mais dinheiro, quem é mais bonito ou simpático, que não olha se uma pessoa se divorciou faz três meses ou tem um amante. Se trata de que pessoas mais capacitadas cheguem ao governo. Eu, pessoalmente, creio que ainda é necessário melhorá-lo. Mas, sem dúvida, o sistema eleitoral cubano é o melhor. É algo que podemos discutir. O que não se pode dizer é que em Cuba não há um sistema democrático.
Nos últimos dias, dois conhecidos artistas, Silvio Rodríguez e Pablo Milanés, tradicionalmente defensores da Revolução, reclamaram “mudanças”. Também Raúl Castro anunciou “mudanças”.
Estão, realmente, ocorrendo mudanças?
O país sempre esteve mudando. A Cuba de 1970 não se parece em nada com a de 1990, nem com a atual. Este ataque feito pelos meios de comunicação às mudanças ocorridas nos anos anteriores, está relacionado ao interesse da direita em mudar Cuba. A ideia é convertê-la num país capitalista, num país pobre do Terceiro Mundo, subordinado aos interesses do grande capital. Isso é algo que nenhum cubano tem em mente . Inclusive, Pablo disse que estava se referindo às mudanças anunciadas por Raúl Castro. No caso de Silvio Rodríguez, manipularam sua entrevista. Num discurso totalmente a favor da Revolução, deram ênfase à palavra “mudança” para colocá-lo como opositor ao processo. Na realidade, é uma palavra que os cubanos falam a toda hora.
Em que consistem essas mudanças?
O principal objetivo é fazer com que a economia seja mais eficiente, fazer com que as pessoas saibam quanto custa tudo aquilo que recebem por parte do Estado. Que o que não trabalha, “passe fome”, entre aspas, para que aprenda a valorizar os benefícios que tem. Existe um processo em que, necessariamente, terá que reverter a pirâmide invertida herdada do período especial, os anos mais duros, onde a gente, segundo a frase do marxismo, oferecia o que nossa capacidade permitia e recebia o equivalente. E deste ponto de vista social, fazer uma melhor utilização do sistema democrático cubano para que a gente possa ter mais participação na vida do país.
Você acredita que a campanha midiática de “desprestígio” que vocês denunciam está além de Cuba? Atualmente, a preocupação é maior com Chávez do que com a própria Revolução Cubana?
Não. Eu acredito que as duas coisas preocupam. Cuba é o escudo moral da América Latina. Tudo o que ocorreu na América Latina nos último anos é graças à Cuba, que foi capaz de resistir 50 anos de perseguições. Porque está aí, porque é um caminho alternativo visível que não fracassou, apesar do bloqueio econômico e de todas as dificuldades. Um país que elevou a expectativa de vida para 77 anos, que tem níveis de mortalidade infantil e materna de Primeiro Mundo. Que tem mais médicos – em cifras, não comparativamente – que a Grã-Bretanha. Com um milhão de universitários, sem analfabetismo, quando, por exemplo, em Sevilha, no Primeiro Mundo, a metade da população não possui o título de bacharel e existem 37 mil pessoas que não sabem ler e escrever... Um país de Terceiro Mundo bloqueado que vem conseguindo todas essas coisas não é um país fracassado. Isso é muito importante para a América Latina. Sem o referencial de Cuba, o processo revolucionário seria diferente. A ausência de Cuba seria um golpe duríssimo não somente para a esquerda da América Latina, mas para o mundo todo.

1º de Maio, Dia de Luta

1º de Maio, Dia de Luta

(Dia do Trabalhador)

No mundo inteiro, o dia primeiro de Maio é um dia de luta dos trabalhadores, pois as conquistas da classe trabalhadora não caem do céu, elas só vêm após muita organização e luta por parte de nós trabalhadores.
Foi assim em Chicago, o principal centro industrial dos Estados Unidos, em 1º de maio de 1886. Cerca de 250 mil trabalhadores foram às ruas para protestar contra as condições de trabalho desumanas a que eram submetidos e exigir a redução da jornada de trabalho de até 14 horas para 8 horas diárias.
Naquele dia 1º, manifestações, passeatas, piquetes e discursos inflamados, movimentaram a cidade. Em contrapartida, a repressão ao movimento foi dura: houve prisões, feridos e até mortos, nos confrontos entre os trabalhadores e a polícia. No dia seguinte, mais trabalhadores nas ruas e mais repressão. No dia 3, após as manifestações, quando a maioria dos manifestantes já havia retornado para casa, um grupo de policiais resolve atirar, alguém atira de volta e mata um deles.
Por causa desse incidente, são presos oito lideres, sem nenhuma prova, pois quando ocorreu a morte do policial apenas um dos lideres se encontrava no local e estava no palanque, no momento em que ele fora morto.
Condenados a forca sem nenhuma prova - Parsons, Engel, Fischer e Spies, são executados. Para tentar parar as execuções dos companheiros, Lingg suicida-se. Os demais são condenados à prisão perpetua. Fieldem, Schwab e Neeb, que ficam presos durante 15 anos, são libertos após esse período de detenção, pois a justiça reconhece não haver prova contra eles.
E assim tem sido desde então quando se resgata essa data e se reafirma as lutas do dia-a-dia, por melhores condições de vida para os trabalhadores, homens e mulheres. É um momento de reflexão e de aprofundamento da compreensão dos aspectos políticos que envolvem a sociedade como um todo, sempre à mercê das mazelas do capitalismo.
Sem esse enfoque anticapitalista, vai se comemorar o que?
Para lembrar e homenagear este dia de reivindicações, mortes e lutas, um congresso socialista, realizado em Paris (França) em 1889, instituiu o 1º de Maio como o Dia Mundial do Trabalhador. É, portanto, o dia do trabalhador e não do trabalho, tal como se tenta deturpar o seu significado histórico.
...

Divulgação
Jornal Anistia Política - Página 4
Ano VII - Nº 21 - 2ºT2009

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Primeiro de Maio: Contra a Crise do Capital, é a hora da luta pelo Socialismo


(Nota Política do PCB)


Nesse 1º de Maio de 2010, dia internacional de luta, o Partido Comunista Brasileiro saúda todos os trabalhadores.

Trata-se de um 1º de Maio especial, pois ocorre após a grave crise que atingiu a economia capitalista em todo o mundo. Os governos e Estados capitalistas reagiram ajudando com enormes somas de dinheiro público, grandes empresas financeiras e industriais. Os trabalhadores, por seu lado, amargaram o desemprego e o aumento da miséria. Dados do próprio FMI indicam que 53 milhões de crianças em todo o mundo poderão morrer por causa dos efeitos da crise.

Enquanto os Estados capitalistas em todo o mundo agiram para salvar os lucros das grandes empresas, os trabalhadores se debateram com o desemprego. Quem ficou na produção e não foi degolado pelo facão das demissões em massa, sente na pele o aumento da exploração, pois as empresas tentam recuperar os níveis de produtividade com um número menor de trabalhadores.

No Brasil o governo Lula não agiu diferente. Concedeu empréstimos a grandes empresas e diminuiu imposto como o IPI para desovar os estoques que estavam encalhados por causa da superprodução. Porém, a crise só foi atenuada para a burguesia. Para os trabalhadores e aposentados nenhuma medida significativa foi tomada. O aumento do consumo se baseia no endividamento privado, em que o crédito consignado garante aos bancos o desconto direto nos salários, sem qualquer risco de inadimplência.

No governo Lula, as frações mais financeirizadas do capital, determinam uma política juros altos que beneficia os detentores dos títulos da dívida pública. A prioridade do governo Lula no que tange aos gastos do governo é o de remunerar os títulos públicos, que consome cerca de 1/3 do orçamento, enquanto políticas públicas como saúde, educação e habitação ficam a mingua. O mesmo vale para as aposentadorias e pensões, com reajustes menores para quem ganha mais de um salário mínimo. Essa política de cortar gastos nas áreas sociais para favorecer os detentores dos títulos públicos, está por trás das recentes tragédias que mataram centenas de trabalhadores no Rio de Janeiro e São Paulo, por causa das enchentes e deslizamentos de terra. Sem uma política habitacional de Estado, com o governo Lula jogando o atendimento dessa demanda para atender os interesses do mercado imobiliário, os setores mais pobres da classe trabalhadora são obrigados a morar em áreas consideradas de risco. Tanto os governo de Serra (PSDB) e Kassab (DEM) em São Paulo, como os governos de Eduardo Paes e Sérgio Cabral no Rio de Janeiro, ambos do PMDB, assim como outros pelo Brasil à fora, cortaram as verbas públicas que poderiam evitar tais tragédias.

Enquanto a propaganda oficial mostra um país que vai às mil maravilhas, a verdade é que as massas trabalhadoras vivem dias de incerteza e insegurança. Nas grandes cidades brasileiras, além de viverem em condições de vida indignas, sem acesso a políticas públicas que universalizem o acesso à educação e a saúde de qualidade, por exemplo, a juventude negra e pobre é vítima da violência do narcotráfico e da polícia. No campo crescem as denúncias de trabalhadores vivendo em condições análogas à da escravidão. A concentração de renda no meio rural brasileiro é a segunda maior do mundo, perdendo apenas para a Namíbia, pequeno país africano. Como o governo Lula acomodou os interesses do grande capital exportador no bloco conservador, o incentivo ao agronegócio amplia a concentração de terra e se torna a causa direta pela não realização da Reforma Agrária no Brasil.

Para o PCB, a saída para essa situação passa pela retomada da organização e das lutas dos trabalhadores brasileiros. Uma luta que em nossa opinião não passa pelo apoio a um novo ciclo de desenvolvimento capitalista. Os problemas mais sentidos pelas massas trabalhadoras no Brasil não é resultado de um baixo desenvolvimento do capitalismo, mas, ao contrário, pelo alto grau de desenvolvimento do capitalismo em nosso país. Nesse sentido, o PCB entende que a retomada das lutas dos trabalhadores brasileiros, passa pela formação de uma frente Anti-Capitalista e Anti-Imperialista, capaz não só de dirigir as lutas, mas também, de construir um movimento contra-hegemônico que dispute a consciência dos trabalhadores para a luta pelo socialismo.

No plano sindical, o PCB luta pelo fortalecimento da Intersindical (Instrumento de Luta e Organização da Classe Trabalhadora), como espaço capaz de aglutinar o sindicalismo classista e combativo e que realizará em 13, 14 e 15 de novembro seu Encontro Nacional.


Por fim, pelo caráter internacionalista do 1º de Maio, o PCB se solidariza com a luta dos povos em todo o mundo contra o imperialismo e o capitalismo. Declaramos nosso irrestrito apoio à Revolução Cubana e às suas conquistas. Declaramos também nosso apoio ao povo do Haiti, exigindo a retirada de todas as tropas estrangeiras do país, incluindo as do Brasil.


Rio de Janeiro, 1º de Maio de 2010.
Comissão Política Nacional do PCB

sexta-feira, 30 de abril de 2010

1º de Maio CLASSISTA!

1° de maio- Dia Mundial do Trabalhador

Em 1886, em Chicago, milhares de trabalhadores foram às ruas para protestar contra as condições de trabalho desumanas a que eram submetidos, exigindo a redução da jornada de trabalho de 13 para 8 horas diárias. Manifestações, passeatas, piquetes e discursos, movimentaram o principal centro industrial dos Estados Unidos. A repressão ao movimento foi dura, o confronto entre policias e operários ficou marcado na história e os mártires de Chicago servem como exemplo até hoje na luta pelos direitos trabalhistas.

Instituído em 1889, como Dia Mundial do Trabalhador, o 1° de Maio é utilizado internacionalmente pelos trabalhadores e trabalhadoras para intensificar as lutas pela implementação dos seus direitos, numa perspectiva de libertação. Mesmo chegado o século XXI e após 124 anos do movimento em Chicago, o modelo de exploração pelo trabalho não mudou muito.

Somos vistos como “mão-de-obra”, “geradores de lucros”, “máquinas”. Nossas crianças ainda trabalham, mulheres e homens camponeses morrem nos canaviais e lavouras, jovens são submetidos cada vez mais cedo a precárias formas de trabalho. Os patrões avançam contra os direitos e os salários como forma de superar sua crise, para diminuir o preço da força de trabalho e retomarem seus lucros.

Nesse contexto, os trabalhadores e trabalhadoras continuam em luta pela transformação da realidade do trabalho, bem como pelas transformações revolucionárias da nossa sociedade. Neste 1° de Maio, não comemoraremos em festa, continuaremos na defesa de nossos direitos, a respeito daqueles que tombaram na luta. Não conseguimos acabar com a exploração, mas avançamos na garantia de algumas reivindicações, pela coragem daqueles que se mantiveram e se mantêm firmes e não cederam, não cedem, nem cederão às migalhas que até hoje nos são oferecidas:

*NENHUM DIREITO A MENOS, PARA AVANÇAR NAS CONQUISTAS
*REDUÇÃO DA JORNADA DE TRABALHO SEM REDUÇÃO SALARIAL
*AUMENTO REAL NOS SALÁRIOS E MELHORES CONDIÇÕES DE TRABALHO
*PELO FIM DO FATOR PREVIDENCIÁRIO. E POR AUMENTO REAL NAS APOSENTADORIAS
*REFORMA AGRÁRIA E URBANA SOB CONTROLE DOS TRABALHADORES
*SAÚDE, EDUCAÇÃO, PREVIDÊNCIA, SANEAMENTO PUBLICO E DE QUALIDADE
*ROMPER AS CERCAS DAS NAÇÕES E CONSTRUIR A LUTA INTERNACIONAL DA CLASSE TRABALHADORA: EM DEFESA DAS CONQUISTAS DA REVOLUÇÃO CUBANA, SOLIDARIEDADE ATIVA AOS TRABALHADORES NO HAITI, PALESTINA E A TODOS AQUELES QUE LUTAM POR SUA AUTODETERMINAÇÃO E CONTRA O CAPITAL. DAS AÇÕES COTIDIANAS, A LUTA POR UMA SOCIEDADE SEM EXPLORADOS E EXPLORADORES, UMA SOCIEDADE SOCIALISTA.

UNIÃO DA JUVENTUDE COMUNISTA

UJC/PE

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A Globo e a ditadura, segundo Walter Clark


A Globo e a ditadura, segundo Walter Clark

O livro “O Campeão de Audiência”[/i] é uma contribuição importante para a compreensão das relações muito especiais entre a TV Globo e o regime militar à sombra do qual floresceu. Além disso, mostra como o jogo de cumplicidade com o regime confundia-se com a luta interna pelo poder dentro da Globo, arbitrada por Roberto Marinho e envolvendo não apenas Clark e Boni, mas também o segundo escalão - Joe Wallach, Arce (José Ulisses Alvarez Arce) e, em especial, o diretor de jornalismo Armando Nogueira.

O artigo é de Argemiro Ferreira.


Ainda que não tivesse sido esse o objetivo de sua autobiografia, na qual relatou há 19 anos a incrível trajetória que o transformara no todo-poderoso senhor, por mais de uma década, da quarta rede comercial de televisão do mundo, Walter Clark acabou por oferecer no livro - “O Campeão de Audiência”, tendo o jornalista Gabriel Priolli como co-autor, Editora Best Seller, 1991 - uma contribuição importante para a compreensão das relações muito especiais entre a TV Globo e o regime militar à sombra do qual floresceu. Além de rejeitar a conhecida imagem da emissora como uma espécie de porta-voz do “Brasil Grande” do ditador Médici, ele garantia nunca ter visto Roberto Marinho "se humilhar diante de quem quer que fosse, milico ou não, presidente da República ou não. Ao contrário, é uma altivez que fica sempre no limite da arrogância."


Clark referia-se à suposta independência do dono da Globo por "manter em torno de si homens de esquerda em cargos importantes" (citava Franklin de Oliveira, Evandro Carlos de Andrade e Henrique Caban) - inclusive depois que o SNI ampliou a pressão contra os dois últimos, com acusações contidas numa fita de vídeo que o dono da Globo fora convocado a assistir em companhia de Clark e Armando Nogueira. Explicitamente, admitia apenas que o regime "incomodava" a Globo, que enfrentou "o mesmo gosto amargo da censura, das intimidações, das impossibilidades que todo mundo sentiu: imprensa, rádio, televisão, as artes, a universidade, a cultura". Claramente na defensiva, o autor mostrava-se ressentido com os que o culpavam - na própria Globo, e mais até do que Marinho - pela submissão ao regime militar. Mas ao passar das opiniões subjetivas aos fatos concretos, acabava por confirmar o que pretendia desmentir: a docilidade das emissoras de televisão, em parte resultante do caráter precário das concessões de canais pelo governo, tinha uma longa história e já o atropelara antes, na TV Rio.


Essa emissora, na qual também foi autoridade máxima (com o título nominal de "diretor comercial"), Clark submeteu-se, sem reação, ao assalto dos lacerdistas - liderados pelo empresário Abrahão Medina, fazendo valer a condição de patrocinador de programas - no episódio da tomada do Forte de Copacabana, em 1964. Posteriormente, conseguiu o prodígio de entregar-se tanto ao governo estadual como ao federal, até mesmo depois do desafio do governador Carlos Lacerda ao presidente Castello Branco. Clark confessou ter retirado do ar programas de Carlos Heitor Cony e Roberto Campos para satisfazer o coronel Gustavo Borges, chefe de Polícia do Rio, que o chantageava com a ameaça de mudar o horário da novela “O Direito de Nascer”, líder de audiência.


Não por acaso, a experiência da Globo acabaria por extremar a tendência à acomodação, a ponto de Clark contratar um ex-diretor da Censura ("o Otati") para "ler tudo que ia para o ar" e, pior ainda, uma "assessoria especial" para cortejar o poder, formada pelo general Paiva Chaves, pelo civil linha dura Edgardo Manoel Erickson ("pelego dos milicos", conforme disse) e mais "uns cinco ou seis funcionários". O episódio que aparentemente o convenceu a ir tão longe chegava a ser cômico: um certo coronel Lourenço, do Dentel, tinha tirado a estação do ar em 1969, convocando Clark ao ministério da Guerra, porque Ibrahim Sued, na esperança de agradar ao Planalto, divulgara uma intriga plantada pelo grupo do general Jaime Portela, então na conspiração do "governo paralelo" juntamente com d. Yolanda Costa e Silva. Ibrahim foi preso e Clark aprendeu a lição depois de levar pito de um certo coronel Athos, "homem de Sílvio Frota".


Além da suposta altivez de Marinho, impressionaram Clark a "integridade", a "honestidade" e o "patriotismo" do general Garrastazu Médici, que depois de 1974 passara a frequentar seu gabinete na Globo para ver futebol aos domingos. Muita gente apanhava e morria nos cárceres da ditadura, mas para ele isso não podia, de forma alguma, ser coisa de Médici: "Tenho a impressão de que ele não se envolveu com nenhum excesso, nenhuma violência do regime". De quem era, então, a responsabilidade? "Foi coisa dos caras da Segunda Seção do Exército, do SNI, do Cenimar, do Cisa, a turma da segurança. E era tudo na faixa de major, tenente-coronel". Pronto a absolver os poderosos, frequentadores de seu gabinete (até mesmo o general Ednardo D'Ávila‚ chamado no livro de "figura agradável"), e a condenar apenas o guarda da esquina, obscuro, Clark comete o disparate de afirmar que "a censura e as pressões não eram feitas pelos generais", mas por "gente como o Augusto", beque do Vasco que virou agente do DOPS. Mas se era assim, por que submeter-se a eles?


O autor recorreu ainda a outra desculpa para justificar o adesismo e o ufanismo tão escancarados na ocasião pela rede dos Marinho: "A Globo não fazia diferente dos outros". E mais: "Se o Estadão não conseguia enfrentar o regime, se a “Veja” não conseguia, como é que a Globo, sendo uma concessão do Estado, conseguiria resistir à censura, às pressões?" O problema, para os críticos de Clark dentro da própria emissora, é que ela, como ele, parecia preferir aquela filosofia de que se o estupro é inevitável a solução é relaxar e aproveitar. Daí os comerciais da AERP (Clark alega que foram feitos para evitar uma "Voz do Brasil" na televisão, projeto de um certo coronel Aguiar), as coberturas patrióticas de eventos militares (Olimpíadas do Exército e o resto), as baboseiras ufanistas de Amaral Neto. "Era o preço que pagávamos para fazer outras coisas", alegou. Não se deu ao trabalhar de explicar que coisas eram essas. E ele mesmo admitiu na autobiografia que o apregoado Padrão Globo de Qualidade "acabou passando por vitrine de um regime com o qual os profissionais da TV Globo jamais concordaram"?


A Globo devia ao regime, como ficou claro no relato de Clark, até mesmo a introdução da TV a cores - imposta pelo ministro das Comunicações, coronel Higino Corsetti, sabe Deus para atender a que lobby multinacional. Mas a intimidade promíscua com o regime foi mais longe, a ponto de compartilhar com o SNI os serviços clandestinos do "despachante" encarregado de liberar contrabandos na Alfândega: para a empresa, equipamentos de TV; para os militares da espionagem oficial, sofisticados aparelhos de escuta ilegal. Graças a isso, Clark podia desfrutar estranhas sessões de lazer como a conversa com um tal general Antônio Marques, pressuroso em exibir foto tirada no escuro de um cinema (com equipamento infravermelho) e identificar o personagem em cena comprometedora como Dom Ivo Lorsheiter, progressista odiado pela linha dura militar.


O autor defendeu no livro tudo o que fez para "afagar o regime" (expressão dele) e investiu contra os que o acusavam de "puxar o saco dos militares" (também expressão dele). Para fazer autocensura, revelou, tinha importantes aliados internos, com destaque especial para o papel do diretor de jornalismo, Armando Nogueira. Por "questão de realismo", por exemplo, Armando e ele tomavam "muito cuidado" para não trombar "com o regime e nem com Roberto Marinho". Mas o leitor tropeça nas contradições da narrativa, entre elas a ambiguidade em relação ao ex-amigo J. B. (Boni) de Oliveira Sobrinho - acusado de fazer vista grossa quando Dias Gomes e outros enfiavam "coisas nos textos que certamente iam dar problemas", mas também de cumplicidade com os militares para destruir o próprio Clark ("lá por 1976, Laís, a mulher do Boni, foi me denunciar para o pessoal do SNI, que ela conhecia, dizendo que eu era um toxicômano perigoso").


Não é preciso inteligência privilegiada para perceber que o jogo de cumplicidade com o regime confundia-se com a luta interna pelo poder dentro da Globo, arbitrada por Marinho e envolvendo não apenas Clark e Boni, mas também o segundo escalão - Joe Wallach, Arce (José Ulisses Alvarez Arce) e, em especial, o diretor de jornalismo Armando Nogueira, pintado no livro como incompetente, preguiçoso e traiçoeiro. Em meio à guerra, as reuniões do conselho de direção nas manhãs de segunda-feira tornaram-se um inferno, em generalizado clima de intriga e discórdia, com todo mundo brigando com todo mundo. O dinheiro farto que todos ganhavam, contou Clark, "era como veneno, especialmente nas mãos das mulheres". Munidas de talões de cheque, elas estrelavam "um festival de nouveau-richismo, pretensão e falta de educação". Acusado de consumir drogas, Clark defendeu-se generalizando a prática: "a cocaína era chique nas festas intelecto-sociais, e o seu consumo, bastante disseminado", mas "resolveram me transformar em drogado".


Quando Marinho decidiu tomar "o brinquedo de volta" - ou seja, recuperar a Globo, que "tinha emprestado para uns garotos mais moços brincarem" - uma das mãos firmemente agarradas ao tapete de Clark, segundo o livro, foi a do ministro da Justiça, Armando Falcão, "tipo deletério, que adorava fazer intrigas, dizer que éramos todos comunistas, drogados, os piores elementos". No relato aparece um Roberto Marinho bem mais coerente na aliança com o regime do que o autor chega a reconhecer explicitamente - tanto que o episódio no qual Clark é afinal defenestrado mistura, de forma reveladora, a disputa pelo poder no regime militar com aquela que se processava na Globo, escancarando as relações perigosas entre o governo e a rede de televisão consolidada à sombra do autoritarismo.


O autor nega que o motivo de sua saída tenha sido, ao contrário do que se propalou na época, seu comportamento pouco ortodoxo - em razão de excessos alcoólicos - numa festinha com poderosos de Brasília. O livro atribuiu a demissão a queda de braço com o regime, que exigia a expulsão pela Rede Globo da afiliada paranaense de Paulo Pimentel, político que rompera com o antigo protetor, ministro Ney Braga, e ainda era desafeto do chefe do SNI, general João Baptista Figueiredo, já a caminho da presidência. Se assim foi, faltou a Clark reconhecer ter sido demitido na primeira vez em que ousou contrariar o regime. "Eu argumentava - escreveu ele - que o governo tinha o poder concedente dos canais de rádio e TV e, se quisesse atingir o Paulo (Pimentel), que cassasse a sua concessão e enfrentasse o desgaste político". Mas Marinho, pragmático, pensava diferente - talvez sintonizado, naquele sombrio ano de 1977, com o clima gerado por mais uma demonstração de força do regime, o Pacote de Abril.


Clark nem sequer notou a semelhança desse episódio com tantos outros que marcaram a aliança promíscua da Globo com o poder - e nos quais ela se limitara a acatar a vontade do regime. Alguns de tais episódios, envolvendo a TV e autoridades militares, desfilaram ao longo de “Campeão de Audiência”: o ataque do general Muricy a um documentário da CBS (para ele, “subversivo”) sobre o Vietnã (ironicamente, comprado pelo americano Wallach, representante do grupo Time-Life); o Jornal Nacional, no seu terceiro dia de sua existência, proibido por um coronel (Manoel Tavares) do gabinete do general Lira Tavares (membro da Junta que tomara o poder) de noticiar o sequestro do embaixador dos EUA e a doença de Costa e Silva, os dois principais assuntos; o aviso do general Sizeno Sarmento de que as músicas “Caminhando” e “América, América” estavam proibidas de ganhar o Festival Internacional da Canção; a ordem do general Orlando Geisel para as patriotadas de Amaral Neto serem incluídas no horário nobre; a prisão do próprio Clark pelo DOPS no dia do Ato 5, por ordem do coronel Luís França e em represália por ter ele discutido com o motorista do militar num incidente de trânsito.


Enfim, a especialidade da Globo parecia ser a de acomodar-se a qualquer situação. A acomodação prevaleceu também no dia da queda de Clark. E ele aceitou sem discutir o prêmio de consolação (US$ 2 milhões) oferecido por Marinho. Limitou-se a encomendar a carta de demissão (“em alto estilo...literário”) ao amigo Otto Lara Resende, suficientemente versátil para também escrever em seguida a resposta na qual o dono da Globo agradeceu os serviços prestados pelo demissionário (cinco anos depois Otto aceitaria ainda outra missão: o prefácio de “Campeão de Audiência”).


A demissão é uma espécie de anticlímax da autobiografia, na qual o autor assumiu compulsivamente a responsabilidade pelas iniciativas bem sucedidas da Globo, declarou-se partidário de programas de qualidade (mas o salto de audiência veio com os popularescos de baixo nível, apresentados por Raul Longras, Dercy Gonçalves, Chacrinha, etc, não muito distantes da atual pornografia BBB) e atribuiu o mal feito a outros - entre eles, os que mantiveram o faturamento milionário e a liderança absoluta de audiência nos anos seguintes, enquanto o próprio Clark, que na Globo tinha o maior salário do mundo e frequentava presidentes e ministros, descia ao fundo do poço, de fracasso em fracasso (como diretor de duas TVs, logo demitido, e produtor de dois filmes nos quais não se reconheceu sua contribuição, além de um espetáculo teatral altamente deficitário)."


Em 14 anos, depois de minha saída, o que houve de realmente novo?" - perguntou o autor naquele ano de 1991, referindo-se à Globo. Pouca coisa, talvez. Hoje, com a perda crescente de audiência para os concorrentes e sem os privilégios garantidos em 20 anos de ditadura militar, ela está condenada a conformar-se com as regras da democracia e da competição. E passa a valer para a Globo a amarga reflexão pessoal de Clark no livro: “Não se deve cultivar excessivamente o poder, pendurar-se emocionalmente nele, porque um belo dia o poder acaba, e o dia seguinte é terrível".

quarta-feira, 28 de abril de 2010

MANIFESTO AO 58° CONEG DA UNE


MANIFESTO AO 58° CONEG DA UNE

A União da juventude comunista na qualidade de fundadora da união brasileira dos estudantes (UNE) apresenta para a juventude brasileira, em especial ao conjunto dos estudantes, seu manifesto sobre as discussões que envolvem o 58° CONEG da UNE realizado no Rio de Janeiro dos dias 22 a 25 de abril.

Primeiramente, repudiamos veementemente a falta de mobilização através da construção de acordos meramente cupulistas que cerceiam a organização de espaços que pertencem ao conjunto dos estudantes. Porém, não acreditamos que tais práticas políticas sejam meramente fruto de erros de condução ou “má fé” por parte da direção da UNE, tais práticas são um produto político e de opções de projetos que acreditamos estar em disputa na sociedade brasileira.

Vivemos em um consenso formado historicamente pela burguesia brasileira, através de diversas ações coercivas e truculentas combinando com ações persuasivas junto a toda sociedade, construindo uma hegemonia de tipo burguesa. Consenso, no qual, se aprofundou fortemente no governo Lula, através do seu projeto de “pacto social” e a incorporação e controle de diversos movimentos sociais afim de “amortecer” qualquer alternativa aos modelos dominantes.

Hegemonia que se sustenta na supressão do protagonismo das mobilizações e organizações populares, substituindo-se simplesmente por um conjunto de ações dentro da institucionalidade burguesa. A UNE vem seguindo este amoldamento à ordem dominante, configurado de forma mais clara através do seu apoio irrestrito ao governo Lula e suas políticas educacionais como, por exemplo, o PROUNI - projeto no qual revitaliza o setor privado na educação - além do seu atrelamento político ao governo em detrimento da mobilização dos estudantes e formulação de projetos alternativos a atual lógica de nossa sociedade. Defendemos que o movimento estudantil e suas entidades representativas sejam independentes, autônomos de governos e que recupere o seu senso crítico e formulador presente em outros tempos. Entretanto, acreditamos que tal transformação não se dará apenas em um fórum ou congresso, mas sim, através de uma intensa mobilização e reflexão nas BASES do movimento estudantil.

São nestas estruturas políticas que se situam as atuais conjunturas de disputa institucional no Brasil, materializadas para o conjunto da população brasileira através das eleições. E dentro deste consenso que citamos, se apresentam duas candidaturas( PT-PC do B-PDT-PSB-PMDB-PTB-PP x PSDB-PPS-DEM) no campo do capital, sem contradições antagônicas, com discussões políticas superficiais e puramente administrativas a serviço do capital monopolista.Por isso, defendemos que o movimento estudantil reflita e apóie campanhas que façam o contraponto a este consenso, através de alternativas e políticas concretas de superação da atual ordem, campanhas MOVIMENTO e de qualificação do debate político que tenham a perspectiva da construção de uma FRENTE ANTICAPITALISTA E ANTIIMPERIALISTA, para além das eleições e que una partidos políticos, entidades da sociedade civil, movimentos sociais e populares, em torno de um programa conjunto de intervenção e superação do capitalismo.

No plano internacional, repudiamos o recente tratado de cooperação assinado pelos governos brasileiros e norte-americanos que pode se concretizar na instalação de uma base dos EUA de inteligência no Brasil visando frear os processos de transformação na América Latina principalmente Venezuela e Bolívia, por isso achamos que é de grande importância o movimento estudantil e as forças antiimperialistas, na sua totalidade se posicionarem e participarem das mobilizações em torno da bandeira: FORA QUALQUER BASE NORTE-AMERICANA NO BRASIL!

Outra questão conjuntural de suma importância são os recursos gerados pela descoberta do pré-sal, defendemos a reestatização da Petrobrás, sob controle dos trabalhadores; monopólio estatal do petróleo; fim da ANP e dos leilões, com a retomada das áreas leiloadas às multinacionais; busca de uma matriz energética menos poluente. Qualquer proposta de geração de recursos para a educação deve ser pautada nesta base para nós comunistas.

Por fim, acreditamos que seja possível construirmos uma alternativa a atual lógica que é reproduzida no movimento estudantil, propomos a construção de um projeto estratégico de universidade que rompa com a lógica mercadológica da educação, a divisão excessiva do saber, e realmente aprofunde a participação e diálogo da produção de conhecimento com a sociedade, são estes princípios concretos que sustentam a nossa idéia de Universidade popular.

Obviamente tal projeto em sua luta, deve embarcar setores para além do movimento estudantil para a sua viabilização real em um amplo movimento, por isso conclamamos aos estudantes debaterem a formulação deste projeto que visa se contrapor radicalmente ao modelo de universidade estabelecido pelo consenso vigente em nossa sociedade, e a partir destas reflexões, mobilizações e ações concretas reconstruirmos o movimento estudantil brasileiro e suas entidades representativas, resgatando a sua criticidade e proposições para a sociedade.E não vamos esquecer que o hoje pode nascer do jamais dito pelas idéias dominantes...

“Quem se atreve a dizer: jamais?
De quem depende a continuação desse domínio?
De quem depende a sua destruição?
Igualmente de nós.Os caídos que se levantem!
Os que estão perdidos que lutem!
Quem reconhece a situação como pode calar-se?
Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.
E o "hoje" nascerá do "jamais".”
Bertolt Brecht- Elogio a dialética
UNIÃO DA JUVENTUDE COMUNISTA
UJC

A OFENSIVA BRASILEIRA


Andrés Soliz Rada


No dia 6 de Abril do corrente ano, uma delegação de Brasília apresentou em La Paz um plano de desenvolvimento binacional, que abrange a instalação de um pólo gás-químico na fronteira, a industrialização do lítio e do potássio, a construção de aeroportos, ferrovias e auto-estradas, bem como projetos de eletrificação, exploração em áreas petrolíferas e pesquisa de plantas tropicais. Semelhante generosidade se deve ao fato que as potências emergentes: Brasil, Rússia, Índia e China (BRIC), não tendo fronteiras comuns, estão obrigados, de maneira prioritária, a acentuar seu domínio em seu entorno geográfico.


A instalação do pólo gás-químico é mencionado desde 1972, primeiro ano da assinatura do contrato de venda de gás ao Brasil, que começou em 1999. O anzol de Lula oculta o interesse da Vale do Rio Doce, a segunda maior mineradora do mundo, transferida aos operadores privados no país vizinho, para impedir que as 100 milhões de toneladas de reservas de lítio e 2.000 milhões de toneladas de reservas de potássio do salar de Uyuni sejam exploradas por companhias norte-americanas, japonesas, russas, chinesas, coreanas ou francesas, sem a participação decisiva do Brasil.


A Vale do Rio Doce, privatizada por Fernando Henrique Cardoso, exporta US $ 150 bilhões por ano, uma quantidade 30 vezes maior que de todas as exportações bolivianas. Lula, por sua vez, consolidou a aliança Estado-Burguesia com a concessão a madeireiros, fazendeiros de soja industrial e agroindustriais brasileiros de um terço das florestas amazônicas no Brasil. Confirmou a sua capacidade em semanas recentes, ao ser elogiada por Obama e Fidel Castro, Chavez e Uribe, Irã e Israel, assim como quase toda a esquerda latino-americana depois de ter enterrado o Banco do Sul, ao transformar o Brasil em credor do FMI e anunciar a criação do Banco de investimentos do BRIC.

A delegação era chefiada por Marco Aurélio Garcia, "o Maquiavel brasileiro" (o "conselheiro do príncipe"). Quatro anos atrás, revelou-se sua influência decisiva sobre o governo do MAS para conseguir, através de um simples telefonema, que o vice-presidente Alvaro Garcia Linera impedisse uma resolução do ministro da Energia, Andrés Soliz Rada, que tentou fazer valer o decreto de nacionalização dos hidrocarbonetos nas refinarias controladas pela Petrobrás, o que precipitou a sua demissão.

No entanto, Marco Aurélio não voltou satisfeito, uma vez que não obteve nenhuma resposta positiva com a velocidade que ele desejava. Aparentemente, a transição institucional que ocorre na Bolívia dificulta encontrar altos funcionários com a capacidade de decisão, enquanto Evo Morales está aprisionado entre as suas ofertas com os operários, com as quais conseguiu sua reeleição, e as demandas indígenas que exigem que ele cumpra a sua proclamada defesa do meio ambiente.

O interesse brasileiro, não só para as causas presentes, mas também para o futuro (anúncio de exploração conjunta de petróleo a longo prazo) ocasiona a susceptibilidade daqueles que se lembram dos 38 anos da "negligência" ao projeto gás-químico, que está associado com a promessa de instalação de 24 usinas termelétricas na Bolívia como parte do gás de San Pablo, agravada pela exportação fraudulenta de gás através da parceria com a Repsol, e o não pagamento pelo gás úmido, durante os primeiros oito anos de vigência do contrato boliviano-brasileiro. Na situação atual, a Bolívia parece um doente muito grave que, de acordo com Lula e Marco Aurélio, poderia sobreviver com soro gota a gota administrado pelo Brasil, desde que não se desenvolva por si mesma.

PCB e as eleições 2010...



PCB lança pré-candidato a presidência e a vice-presidência,


são os camaradas IVAN PINHEIRO e EDMILSON COSTA.




A pré-candidatura do Partido Comunista Brasileiro à Presidência da República não é para fazer barganha política com os outros partidos. É uma pré-candidatura na perspectiva da construção de uma frente anti-capitalista e anti-imperialista permanente, na luta pelo socialismo.



Essa foi a tônica do discurso de Ivan Pinheiro, secretário-geral do PCB, no lançamento da sua pré-candidatura a presidente. Na ocasião também foi apresentado o livro com as resoluções do XIV Congresso do Partido, realizado em outubro do ano passado.



O auditório da Associação Brasileira de Imprensa, no qual ocorreu o evento, ficou pequeno para os militantes e amigos do Partido que compareceram à cerimônia. Em seu início, os membros da direção do PCB fizeram uma exposição da posição política que norteia as resoluções do XIV Congresso. Estavam na mesa, além de Ivan Pinheiro, Mauro Iasi, Eduardo Serra, José Paulo Neto e Ricardo Costa.


O secretário-geral fez uma avaliação da eleição de 2006 na qual o PCB participou em coligação com o PSOL e o PSTU. Segundo ele, naquela campanha não houve uma verdadeira composição programática entre os partidos, mas sim uma mera coligação eleitoral, o que contraria a política dos comunistas.


Ivan ressaltou a importância da pré-candidatura própria à Presidência. Ele afirmou que a pré-candidatura não fará concessões, mas que pretende mostrar a cara do Partido e explicar à população que existe uma alternativa ao capitalismo, que é o socialismo.


Ao comentar a presença do camarada José Paulo Neto, que voltou ao PCB após 18 anos sem militância partidária, Ivan disse que “o Partido nunca saiu de dentro dele”, ao fazer referência ao afastamento de José Paulo, por conta dos problemas, desvios e divisões que marcaram o PCB nos anos 80 e início dos 90.


Destacou ainda que não existe diferença entre os dois mais fortes pré-candidatos eleitoralmente a presidente, mas sim uma disputa para definir qual será o melhor representante para administrar o capitalismo em nosso país.


Ivan Pinheiro conclamou os militantes e amigos do Partido a fazerem dessa campanha um forte instrumento de denúncia do capitalismo e da construção de um bloco revolucionário do proletariado, rumo ao socialismo.




A TRAJETÓRIA DE IVAN PINHEIRO:



Ivan Pinheiro, advogado, 64 anos, (Rio de Janeiro, 18 de março de 1946), pai de cinco filhas, é o Secretário Geral do PCB - Partido Comunista Brasileiro.



Iniciou sua atividade política ainda na adolescência, no Colégio Pedro II, onde estudou entre 1957 e 1963; foi diretor do Grêmio Estudantil. Participou ativamente do movimento secundarista.



Em 1965, ingressou na ainda Universidade do Estado da Guanabara - UEG (atual Uerj), onde estudou Direito. Nessa época, integrou-se ao Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8). Durante o curso, foi diretor do Centro Acadêmico Luiz Carpenter (CALC). Dada a sua trajetória como liderança estudantil, atualmente a sede do Centro Acadêmico chama-se "Sala Ivan Pinheiro".



Após a derrota da luta armada no combate ao regime militar, Ivan passou a considerar importante a participação no movimento de massas. Após desligar-se do MR-8, fez contato com o Partido Comunista Brasileiro na clandestinidade. Ingressou no PCB em 1976 e dele jamais se afastou.


A partir de 1976, passou a atuar no seu local de trabalho: o Banco do Brasil. Com a convocação das eleições do Sindicato dos Bancários, em 1978, pelos interventores do Ministério do Trabalho, pré-candidatou-se à presidência do sindicato, por decisão do PCB. O pleito durou um ano e dez meses, em função de manobras do Ministério do Trabalho. A vitória final, através de uma votação esmagadora, consagrou Ivan Pinheiro como um dos principais líderes sindicais do país. Sob seu comando, o Sindicato dos Bancários se tornou, na prática, o principal centro de resistência à ditadura no Rio de Janeiro.


Sua trajetória como expoente do PCB teve início em 1982, quando foi realizado o VII Congresso Nacional do Partido. Neste evento, Ivan e os demais participantes foram presos, após invasão do local da reunião pela Polícia Federal. Com esta prisão, foi enquadrado no último processo com base na famigerada “Lei de Segurança Nacional”. No Congresso, que ocorreu depois, na clandestinidade, Ivan foi eleito para o Comitê Central, sendo então seu mais jovem integrante. É hoje o mais antigo membro da Comissão Política do Comitê Central, de que participa há 28 anos ininterruptos.


Em 1986, sua pré-candidatura ao governo do Estado do Rio de Janeiro (lançada por uma Conferência Regional do PCB-RJ) foi retirada pelo Comitê Central, em favor do apoio ao pré-candidato do PMDB, Moreira Franco. Ivan submeteu-se à decisão, de que discordava, e aceitou concorrer a deputado federal constituinte, em uma chapa própria do PCB. Apesar da boa votação obtida, não foi alcançado o coeficiente eleitoral.


No ano seguinte, liderou a esmagadora maioria dos sindicalistas do PCB na Conferência Sindical Nacional do Partido, impondo à sua direção a opção pela CUT, em detrimento da CGT. Desde 1981, Ivan divergia da maioria do Comitê Central, lutando contra o atrelamento do Partido ao PMDB e a conciliação de classe.


No início da década de 1990, com o colapso do socialismo na URSS e no Leste Europeu, uma grave crise emergiu no Partidão, resultando numa grande cisão, em janeiro de 1992, quando foi criado o PPS. Ivan Pinheiro assumiu, juntamente com Horácio Macedo e Zuleide Faria de Melo, a liderança do grupo que manteve-se fiel aos ideais estabelecidos na fundação do PCB, em 1922.


Em 1996, Ivan Pinheiro foi pré-candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, tendo como lema "Uma Revolução no Rio". Apesar do fraco desempenho nas urnas, a campanha foi um marco importante para a reconstrução do PCB.


No XIII Congresso do PCB, em março de 2005, em Belo Horizonte, Ivan foi eleito Secretário Geral do Partido. Este congresso marcou a ruptura do PCB com o governo Lula e apontou um novo rumo para a estratégia partidária.


No XIV Congresso do PCB, em outubro de 2010, no Rio de Janeiro, Ivan Pinheiro foi reeleito para o Comitê Central do PCB, que o reconduziu à Secretaria Geral.




A Comissão Política Nacional do PCB decidiu lançar EDMILSON COSTA como pré-candidato a Vice-Presidente da República, na chapa encabeçada por IVAN PINHEIRO, Secretário Geral do Partido.



Edmilson Costa é doutor em Economia pela Universidade Estadual de Campinas, com pós-doutorado no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da mesma instituição, além de professoruniversitário. Natural do Maranhão, Edmilson é militante do PCB desde os tempos de estudante. Foi secretário-geral da União Maranhense dos Estudantes Secundaristas, em 1968, e presidente da Casa dos Estudantes Universitários do Maranhão, em 1973. Em São Paulo, exerceu o jornalismo por mais de 10 anos e posteriormente se especializou nos estudos de Economia.


Como militante comunista, Edmilson Costa participou, tanto na clandestinidade quanto na legalidade, de todas as lutas pelas liberdades democráticas no Brasil. Nas últimas eleições municipais, foi pré-candidato a prefeito de São Paulo. Membro do Comitê Central do PCB desde o IX Congresso, foi um dos articuladores do processo de resistência à tentativa de liquidação do Partido e, durante vários períodos, foi secretário político do PCB em São Paulo.


Atualmente, Edmilson Costa é membro da Comissão Política do Comitê Central do PCB e seu Secretário de Relações Internacionais, tendo representado o Partido em vários congressos, seminários e encontrosinternacionais.


É autor de O Imperialismo (Global Editora, 1989), A Política Salarial no Brasil (Boitempo Editorial, 1997), Um Projeto para o Brasil (Tecno-Científica, 1998) e A Globalização e o Capitalismo Contemporâneo (Oficina Universitária, no prelo), além de vários ensaios publicados em revistas e sites especializados no Brasil e no exterior.


Além de toda atividade política e acadêmica, Edmilson Costa é poeta e compositor. Tem três livros de poesia publicados e, de suas mais de 70 composições de MPB com diversos parceiros da cena musical paulistana, cerca de vinte delas estão gravadas por artistas de São Paulo e de outros Estados.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

A marcha do MST e a Mídia em Pernambuco


A marcha do MST e o público (ainda) refém das linhas editoriais

Cátia Oliveira e Ivan Moraes


Dia de cão no Recife”, diz a manchete do Jornal do Commercio nessa manhã de terça-feira. Adiante, na matéria sobre o assunto, no caderno Cidades, o título também não alivia: “MST invade o Recife e trânsito fica caótico”.


“O caos agora virou rotina” é a chamada da capa do Diário de Pernambuco sobre mesma Marcha do MST, movimento que paralisou algumas vias do Recife ontem, por duas horas, como estratégia para tornarvisível sua pauta de protestos. Dentro do DP, a matéria é intitulada“Cidade refém de Protesto mais uma vez”. “Sem Terra fecham vias dacapital”, é destaque, capa do caderno Grande Recife, da Folha dePernambuco.


Os títulos dos jornais já dão mais que uma pista do que encontraremosno texto: o “fetiche do trânsito” se sobrepondo à reivindicações dedireitos fundamentais.


A “explicação técnica” pode até fazer sentido. De tiragem que circulaos 30 mil exemplares, os três grandes jornais pernambucanos são lidos principalmente por pessoas de classe média urbana, que locomovem-se decarro e que vêem no livre acesso às vias uma questão muito mais relevante que a morosidade no processo de reforma agrária. Esquece-se, porém, alguns jornalistas quando confundem o “interesse público” com o“interesse do público”.


As coberturas feitas pelos jornais parecem separar as pessoas em duascategorias: os que têm seus direitos ameaçados por esperarem em um engarrafamento e aqueles que infringiram os direitos dos que estão nosveículos. Uma questão que muitos poderiam achar importante, como aprópria situação da reforma agrária, passa longe do foco principal.


Os três jornais fazem opção clara por focar a paralisação do trânsitoe o atraso causado pelo protesto, ao invés de esforçar-se para explicar os motivos que levaram os manifestantes às ruas e o teor dasreivindicações como: atualização dos índices de produtividade dos latifúndios, a dotação orçamentária prevista para o Incra, para açõesde reforma agrária entre outras questões.


Sem voz


Além do Jornal do Commercio nenhum outro jornal publica qualquer depoimento de militantes da base sem terra que participaram doprotesto. Parece que falta a curiosidade de perguntar: “o que faz o senhor sair de sua casa para vir até aqui parar o trânsito?” Commilhares de pessoas nas ruas, certamente respostas interessantes viriam à tona. Mas a essa gente, como regra geral, não foi dado odireito à palavra. Não pertencem à classe que fica parada no trânsito.


E o outro lado? Há quanto tempo muitas dessas pessoas esperam por verdireitos garantidos? Os depoimentos das pessoas presas no trânsito ede agentes do estado são sempre privilegiadas em detrimento das falas de lideranças do MST ou participantes manifestantes. Também em menor número. Na Folha de Pernambuco há quatro falas se posicionando deforma contrária ao protesto, que antecedem a fala de Jaime Amorim,dirigente do MST em Pernambuco.


No Diário de Pernambuco, há três falas contrárias ao protesto – umadelas de tom legalista, que tenta deslegitimar a manifestação. A última (e isso é sintomático) frase do texto é uma declaração de Cássia Bechara (do MST), sobre o direito de protestar.


Onde estaria o equilíbrio que reza a cartilha de ouvir ambas as partesde forma igualitária? Mesmo sendo a imparcialidade um mito, é importante que a diversidade de visões sobre um mesmo acontecimento seja relatada por quem pretende fazer o bom jornalismo.


Informação e opinião


Apesar do titulo que flerta com o sensacionalismo, a reportagem do Jornal do Commercio é quem faz uma cobertura mais informativa eequilibrada, procurando trazer no primeiro parágrafo os motivos damanifestação. Contudo, não desenvolve-os e muitas vezes refere-se às ocupações como “invasões”. O JC também não “foge à regra” ao fomentara divisão entre categorias. Mesmo que tenha colhido forte depoimentode lado sem voz, o jornal também publica uma fala emblemática de umasenhora transeunte: “Eles deveriam protestar contra o governo e não contra a população”, diz a entrevistada.


Fica claro que o jornal evidenciou o fato dos observadores da manifestação se sentirem um grupo à parte, como se militantes semterra também não fizessem parte da população.


Nos três jornais, as motivações do protesto acabam tornando-se vaziase, dentro do contexto da reportagem, servem apenas para que o leitor reflita apenas sobre o “principal problema”, que é o trânsito dacidade.


Dessa forma, quem é mesmo que se torna refém de quem?


O MST e a polifonia do pensamento único

*Ana Veloso


Sim, eles podem esperar 500 anos para ter seu direito humano a umpedaço de terra para viver e plantar, mas, os/as motoristas do Recife não podem “perder” duas horas em um engarrafamento por conta do protesto mais do que justo do Movimento dos Sem-Terra. Até que ponto a sociedade pernambucana não concorda com a polifonia do pensamento único que apenas aponta uma realidade parcial acerca do MST: de que são baderneiros, invasores, destruidores e vagabundos? As capas dos jornais do dia seguinte à manifestação pela reforma agrária demonstram essa reprodução do preconceito e de uma imagem criada com base em um instante de toda a luta histórica de um movimento social. Momento que fica cristalizado no imaginário popular e que atravessa e constrói, até de forma até violenta, o campo da ordem simbólica.


Afinal, quais são os critérios de noticiabilidade da imprensa? Comcerteza, não são meramente técnicos! Por qual razão, a mídia prefereignorar as bandeiras desse protesto, descontextualizando toda aorganização desses/as trabalhadores do campo e expondo-os pinçando um instantâneo da sua trajetória? O abril é vermelho! Mas, o único ponto abordado pelas pessoas, nas ruas, foi o engarrafamento. Um protesto que “abalou” o cotidiano daquelas pessoas que vivem no universo wireles. Explico: seres que habitam em um ambiente climatizado, onde a internet é comum a todos/as e a realidade é plasmada por essas duas características da cibernética sociedade do consumo.


Os meios de comunicação, ao tratar o assunto como um produto a mais na prateleira do seu “museu de grandes novidades”, desconhecem quevivemos em uma sociedade-encruzilhada, conceito de Martín-Barbero(1987) que ajuda a entender os processos comunicacionais e sociais nos quais estamos inseridos/as: “Sobrecarregada tanto pelos processos detransnacionalização quanto pela emergência de sujeitos sociais e identidades culturais novas, a comunicação está se convertendo num espaço estratégico a partir do qual se pode pensar os bloqueios e as contradições que dinamizam essas sociedades-encruzilhada, a meio caminho entre um subdesenvolvimento acelerado e uma modernização compulsiva”.


Mas, os “novos sujeitos” para conviver nessa “fauna” precisam ter uma“identidade discreta”. O universo das realidades parciais funciona mais ou menos assim: você pode até ser do MST, desde que não ouse reclamar publicamente. Finja que não é trabalhador explorado, expropriado dos seus direitos. Se o fizer, que seja no seu “gueto”. A mesma máxima vale para os gays e lésbicas. Nada pode abalar o consensofabricado em torno de uma realidade também construída. Nada que traga a “paixão pelo real” à tona, como diz Slavoj Žižek.


Ainda assim, fica difícil compreender por qual razão, na vida desses motoristas, pedestres e passageiros do Recife, que emergem como representantes dessa sociedade multifacetada, eclética, wireles ecimatizada, não cabe pensar sobre a importância política, social, material e simbólica que envolve o ato do MST!


*Jornalista, colaboradora do Centro das Mulheres do Cabo, doutoranda emComunicação pela Universidade Federal de Pernambuco e empreendedorasocial Ashoka